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  • FEMINICÍDIO: Polícia busca provas para indiciar acusado de jogar mulher do 3º andar

    9 de agosto de 2018

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    Testemunhas e o comportamento do único suspeito reforçam a hipótese de Carla Graziele Zandoná, 37 anos, ter sido empurrada ou jogada do terceiro andar do Bloco T da 415 Sul, na noite de segunda-feira. Os agentes agora buscam provas para o indiciamento do ex-motorista Jonas Zandoná, 44, por homicídio qualificado com os agravantes de um feminicídio, crime motivado pelo ódio à mulher. Preso em flagrante, o suspeito era casado com a vítima, com quem teve um filho de 19 anos.

    Para o delegado responsável pelo caso, João de Ataliba Neto, adjunto da 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), o comportamento de Jonas aponta que ele “não estava alheio à situação”. Segundo o investigador, o ex-motorista não agiu “como alguém que não fez nada de errado”. “Uma testemunha viu o momento da queda da vítima, gritou por socorro e interfonou ao apartamento. Jonas teria atendido e não demonstrado reação. A pessoa teria perguntado: ‘Foi aí que caiu uma mulher?’ E o marido teria ficado calado. Desligou, não desceu para ver o que tinha acontecido e se trancou no apartamento”, contou Ataliba.

    Quando policiais militares chegaram ao bloco, Jonas ainda estava com a porta de casa trancada. “Os militares bateram na porta e o homem se recusou a abrir, o que fez com que os policiais a arrombassem”, detalhou o delegado. De acordo com a Polícia Militar, Jonas estava armado com uma faca, dentro do apartamento. “Ao ir para a cela da delegacia, o homem disse a outro preso que estava lá porque tinha matado a mulher”, ressaltou Ataliba. Essa declaração será incluída no inquérito.

    Carla caiu de costas. Isso também corrobora para os investigadores acreditarem que ela foi empurrada ou arremessada. Os agentes vão escutar mais testemunhas, como vizinhos e familiares e têm até 10 dias para concluir as investigações, pois o suspeito teve a prisão convertida para preventiva. Os agentes aguardam o resultado da perícia e dos exames de corpo delito realizados no suspeito e na vítima. Também buscam câmeras de segurança que possam esclarecer as questões da morte de Carla. “Mesmo que não exista imagens do momento da queda, podemos conseguir algum material que mostre o casal momentos antes do ocorrido. Eles podem ter brigado ainda embaixo do prédio ou no elevador”, observou o delegado.

    Ficha criminal

    O filho de Carla e Jonas contou aos investigadores que os pais brigavam frequentemente e que Jonas havia agredido a mãe fisicamente. “Há uma ocorrência contra o suspeito, de 2015, que diz que ele torceu o braço e ameaçou a sogra de morte. Em 2016, a esposa o denunciou por injúria e agressão. No ano seguinte, ele foi preso por ameaça e lesão corporal contra a mulher”, contou Ataliba.  “Recebemos relatos de que ele é uma pessoa alcoólatra e fica violento quando bebe. Temos informações de que ele já quebrou até o maxilar da vítima e ela preferiu não denunciar, por ficar com pena”, completou.

    O casal dividia o apartamento com Salmon Lustosa Elvas, 75, servidor aposentado do Senado Federal. Em depoimento, ele contou que dormia quando Carla caiu pela janela. O trio morava junto havia 18 anos, mas o único que tinha fonte de renda era o idoso. “Jonas trabalhou como motorista para Salmon, mas estava desempregado, e Carla dizia que fazia apenas diárias no apartamento, mas testemunhas contaram que ela também morava lá”, comentou Ataliba.

    Indignação

    Choro e indignação marcaram o enterro de Carla, no Cemitério de Brazlândia, ontem à tarde. Enquanto o corpo de Carla era velado, o filho e a mãe da vítima, Oscarina Alves Coelho Rodrigues, 56, choravam à beira do caixão. A todo momento, algum parente se questionava sobre o motivo do assassinato. “Só queremos Justiça e que quem tiver que pagar, que pague. O que sentimos é muita dor, algo imensurável”, lamentou Marlene Coelho de Sousa, 57, tia de Carla.

    Jonas foi o primeiro e único namorado de Carla, que se casou com ele aos 16 anos. Passaram a morar na casa da mãe dela, em Ceilândia. Por conta das agressões físicas e psicológicas constantes contra Carla, Oscarina expulsou Jonas de casa. Como ele era próximo de Salmon há anos, foi convidado a viver com ele, na 415 Sul. Carla costumava passar a semana no apartamento, com eles, e, aos sábados e domingos, ficava com a mãe. Por um tempo, Carla trabalhou como diarista para Salmon.

    Outro enterro

    Além de Carla Graziele, as duas outras vítimas mais recentes de feminicídio no DF são Adriana Castro Rosa Santos, 40, morta terça-feira, e Marília Jane de Sousa Silva, 58, assassinada no domingo. Com as três ocorrências em três dias, o DF registrou 19 feminicídios até 7 de agosto, a mesma quantidade do anotado nos 12 meses do ano passado.

    Adriana foi assassinada a tiros pelo ex-marido, o policial militar Epaminondas Silva Santos, 51, que se matou após o crime, na manhã de terça-feira. O corpo dela será velado a partir das 8h de hoje, na capela 4 do Cemitério Campo da Esperança, em Taguatinga. O sepultamento está previsto para as 11h.

    Marília também foi baleada. O assassino confesso é o taxista Edilson Januário de Souto, 61. Ele fugiu após o crime, no fim da tarde de domingo, e se entregou terça-feira, na 27ªDP (Recanto das Emas). Desde então, está preso. O corpo da vítima foi levado para Paraíba, onde moram os familiares.

    Para saber mais

    Punição mais rigorosa 
     
    O Senado aprovou, terça-feira, um projeto de lei que aumenta a pena em casos de estupro coletivo. O texto também torna infração a importunação sexual — quando alguém divulga vídeo ou foto de estupro —, com pena de um a cinco anos de prisão. O projeto prevê que  a punição de seis a 10 anos de cadeia para o estupro aumenta em um terço se o crime for cometido em local público, aberto ao público ou com grande aglomeração de pessoas ou em meio de transporte público, à noite, em lugar ermo, com arma ou outro meio que dificulte a defesa da vítima. O projeto segue para sanção presidencial.

    Três perguntas para

    Rejane Jungbluth, juíza titular do Juizado de violência doméstica de São Sebastião e autora do livro Invisíveis Marias: histórias além das quatro paredes

    (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
    (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
    Como uma mulher pode perceber que está inserida em um contexto de violência doméstica?
    Os episódios de violência doméstica dificilmente começam com a agressão física, porque, se não, nenhuma mulher permaneceria no relacionamento com um homem agressivo. O agressor alega carinho e cuidado, em episódios como as crises de ciúmes, a proibição do uso de uma determinada peça de roupa. São momentos que, no início, podem ser confundidos com amor e cuidado, mas são tipos de violência psicológica e moral.

    Como funcionam as redes de proteção?
    Inseridas em um contexto de violência, as vítimas, na maioria das vezes, não percebem os históricos de agressão. Por isso, é necessário que os serviços de saúde acolham essa mulher, com atendimentos psicológicos e de assistência social. A rede familiar e de amigos que cerca essa mulher percebe essa situação antes mesmo que ela. Portanto, o primeiro passo para reconhecer essa violência é escutar quem está ao lado. Depois do amparo, a busca pelo sistema de Justiça é importante, como as delegacias e o Ministério Público.

    Como encorajar as mulheres a fazer denúncias?
    Violência doméstica se combate falando da violência em si. É importante ter ações solidárias para mostrar caminhos, as consequências das denúncias, para incentivar a quebra do ciclo da violência. Outra forma é mostrar outras histórias, sejam aquelas que acabem bem, sejam aquelas que acabem mal, porque a mulher que se enxerga em situação parecida pensa se aquilo pode ou não acontecer com ela, como no caso de um feminicídio, por exemplo. Nessa identificação da mulher com outras histórias, ela conhece os trâmites processuais.

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